11 abril 2011

Um convite a ler... Dom Casmurro!

Ge1_large
Capítulo 38
 A alma é cheia de mistérios

O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, 
uma vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe 
graça, e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Pegueilhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim 
pasmado e trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, 
para obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu 
à intenção. Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- 
não vivia com rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não 
conhecia a violação de Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam 
pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não 
nego que o final do penteado da manhã era um Brande passo no 
caminho da movimentação amorosa, mas o gesto de então foi 
justamente o contrário deste. De manhã, ela derreou a cabeça, agora 
fugia-me; nem é só nisso que os lances diferiam; em outro ponto, 
parecendo haver repetição, houve contraste.  
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão 
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas 
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas; 
depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e 
o outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a 
reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a 
cabeça não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os 
meus esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não 
conhecendo a lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda 
por baixo da cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de 
vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para 
arrancar-se à outra mão e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, 
sem estrépito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a 
cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia 
de mistérios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até 
que cansou; mas então foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um 
movimento inverso, relativamente à minha, indo para um lado, quando 
eu a buscava do outro oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que 
ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais...  
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu, que 
voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava às vezes. "Abre, 
Nanata! Capitu, abre!" Aparentemente era o mesmo lance da manhã, 
quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente verdade, era outro. 59 
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D. 
Fortunata foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos 
com as mãos presas, e nada estava sequer começado.  
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a mãe 
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo 
de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tentá-lo, 
mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto 
inesperado, pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que 
estava a recusar à força. Repito, a alma é cheia de mistérios.  


P.s: Estou lendo Dom Casmurro, e estou me encantando!... ;}

UmCheiro!
UmBeijo!♥

2 comentários:

Vicky Doretto disse...

Eu li Dom Casmurro há um tempo para a escola... depois reli para o vestibular, não que fosse cair, mas para me lembrar do jeito da escrita do Machado... É um livro muito bom *-*

BJão =^.^=

ɑɳiɳɦɑɑ √ii૮k. disse...

awwwww *---*
brigada!
beju ;*

Solte sua criatividade!

!-- Inicio do codigo de navegacao -->